domingo, 8 de fevereiro de 2009

Mais Funções em Paisagismo

18/3/2002
Na teoria da evolução de Darwin, as formas são determinadas pelas funções tanto quanto estas... por aquelas. Muitas vezes, um órgão, aparentemente desenvolvido para executar determinada tarefa, “encontra” novas maneiras de ser útil a seu sistema, aumentando a competência do organismo de que faz parte. Exemplos disso:
• as bocas emitem sons além de exercerem sua função primordial, que é comer;
• os narizes que, além de respirar, são órgãos do olfato e, nos elefantes, mão e ducha;
• os espinhos defensores dos cactos também condensam (não me perguntem como) a escassa umidade noturna dos desertos e, inclinados, conduzem por gravidade as gotículas para os caules que as absorvem;
• os leões e outros mamíferos utilizam a função urinária para delimitar seus territórios;
• já, os grandes ursos deixam a marca de suas garras o mais alto possível na casca das árvores e assim, além de demarcar o território, sinalizam confiantes sua estatura, gerando uma considerável economia de energia que, de outro modo, seria gasta para afugentar nanicos;
• as barbatanas nos peixes voadores e as mãos nos morcegos acumulam a responsabilidade pelas manobras aéreas;
• as garras mais desenvolvidas dos caranguejos machos perderam até a função de levar o alimento à boca, mas, além de fundamentais na luta, servem para acenar e atrair as fêmeas;
• etc. (Se alguém souber de mais algum exemplo interessante, pode me enviar. Estou colecionando.)

Observamos que os seres usam de maneira “criativa” seus equipamentos para se tornarem mais eficientes na competitiva arte de permanecer com vida ou gerar maior descendência. Ainda não escrita, a “História das Funções dos Órgãos” pode ter idas e vindas, abandonos e retomadas, saltos e bifurcações que talvez surpreendam os mais imaginativos. Você sabia que, segundo alguns darwinistas, a mandíbula já foi costela ?

Transpondo as suposições acima para o Paisagismo e tentando extrair delas algum ensinamento, pensaremos, sempre que possível, em mais de um objetivo para cada elemento dos projetos pois, colocar árvores num jardim simplesmente para dar sombra, ou bancos só para as pessoas se sentarem é algo que qualquer pipoqueiro da esquina, mesmo sem estudo e experiência, facilmente executa.

Ao projetar, pretendemos que cada objetivo a ser alcançado corresponda a um desempenho que visamos para algum equipamento ou grupo de equipamentos. Ou seja: o que queremos que aconteça na praça ou no parque vai acontecer porque antes colocamos no projeto elementos para ensejar aquele acontecimento. Dito desta forma, pode parecer até tautológico, mas... calma. É por isso que faremos as palavras objetivo e função se equivalerem daqui para frente.

Um projeto torna-se eficiente (gera economia) ao maximizar o aproveitamento do que cada item de seu conjunto pode oferecer em termos funcionais. É aí que o paisagista tem a chance de compensar, inequivocamente, sua contratação. Isto se aplica a todos os níveis, desde o estabelecimento das macro diretrizes de programas regionais até o detalhamento particular de um equipamento.

E assim fazem aqueles que mostram alguma estratégia, por mínima que seja, mesmo nos mais banais atos da vida quotidiana. Quem, por algum motivo, precisa se deslocar para longe, aproveita a viagem para, lá, tratar de outro assunto. Por exemplo: ir ao dentista na cidade e comprar alpiste para o hamster numa loja especializada, próxima. Se for possível, de passagem, incluir uma visita ao escritório de um ex-amigo para forçá-lo a pagar aquela velha dívida, essa viagem já terá três diversas funções ou objetivos.

Diversidade não é algo desejável sempre, mas somos naturalmente inclinados a achar que, em geral, quanto mais diversidade melhor, porque a entropia leva à indiferenciação e os seres vivos precisam remar contra essa maré. Uma das setas anti-entrópicas da vida aponta no sentido da diversidade. Num trabalho perpétuo, comparável ao de Sísifo, fazemos força para expulsar a desordem e controlar o caos que, sem trégua, tentam se imiscuir nos ambientes orgânicos, organizados ou ordenados. Nenhum de nós, que nos prezamos, está aí para admitir que o pó, ao qual retornaremos um dia, e nossas queridas carcaças percam, tão cedo, a saudável diferença que ainda existe entre eles.

Numa empreitada, se falharmos em alcançar apenas um dentre diversos objetivos, não estaremos diante de um fracasso total. Mais do que evitar colocar todos os ovos numa única cesta ou apostar todas as fichas no mesmo número, diversificar objetivos é, também, uma forma de ser prudente que se abre para as probabilidades de haver sinergia entre os resultados obtidos e, note-se, a sinergia é plural-dependente por definição.

Mas, cuidado! No ambiente não-euclidiano da sinergia, a aritmética não tem muito prestígio. Lá, dificilmente, dois mais dois são quatro. Os resultados de um plano que atinja as diversas funções pretendidas para seus elementos podem ser melhores ou muito piores do que era possível prever no início.

A arte de aproveitar os benefícios da sinergia que porventura venha a emergir de um conjunto de objetivos é, como soem ser as artes, sutil, tinhosa e fugidia, sendo, por isso mesmo e com alguma dose de resignação, chamada de “dom inato”. Bons resultados artísticos freqüentemente estão ligados a circunstâncias especiais, impalpáveis e de difícil reprodução, maliciosamente denominadas “sorte”. Podemos pelejar, entretanto, no sentido adquirir este dom pelos meios tradicionais: observação dos bons exemplos, estudo e prática; e também tratar de aumentar as chances de essas circunstâncias positivas acontecerem, cercando-as por mais de um lado e, principalmente, evitando impedir seu surgimento espontâneo.

Assim, avançamos um pouco mais: os objetivos de cada um dos componentes de nossos projetos não podem ser conflitantes, excludentes, nem sabotar a eficiência uns dos outros. A hierarquia entre os objetivos deve ser respeitada. Não devemos atender a uma função em detrimento de outra mais importante. Hoje, algumas cadeiras são feitas mais para empilhar do que para sentar, assim como algumas calçadas populosas, no cândido afã de abrigar frágeis plantinhas ornamentais, prejudicam a circulação de hordas que podem estar atrasadas para ir aumentar o nosso produto interno bruto.

Evitaremos, sobretudo, confundir equipamentos que satisfazem plenamente a dois ou mais objetivos com seu oposto: as malfadadas fusões de equipamentos – soluções híbridas e patéticas que pretendem muito, mas ficam a meio caminho entre uma e outra função, ambas prejudicadas. Só para deixar claro, aí vão dois exemplos disso, muito exagerados, que felizmente ainda não existem: banco-lixeira e churrasqueira-bebedouro. Num caso desses, melhor seria ficar no simples, lembrando que o que se deixa de perpetrar é tão ou mais importante do que aquilo que se comete.

Agora, exemplos positivos, sérios. Podemos notar que, além das funções estéticas:
• lagos servem de espelhos e obstáculos respeitáveis (sem serem agressivos) ao fluxo de pedestres,
• play-grounds podem ser também monumentos ou esculturas,
• pisos: painéis artísticos ou de comunicação,
• bancos: defesas de jardineiras,
• grupos de árvores: barreiras visuais;
• anfiteatros: arrimos,
• renques de palmeiras: sinalização de uma estrada,
• grupos de Ficus pertusa: play-grounds,
• campos de esporte: platéias,
• meios-fios: canaletas de drenagem,
• e assim por diante. Mais exemplos ficam por conta da observação ativa de cada um. (Também estou colecionando exemplos desta categoria.)

É difícil definir a partir de que momento funções ingressam no mundo real, mas, uma vez estabelecidas, o difícil é dizer como foi possível não terem existido algum dia. A humanidade conheceu o círculo e a haste bem antes da roda e da alavanca. O oxigênio já foi lixo, o petróleo idem. O fogo, antes de ser nosso aliado na luta contra o frio, a indigestão, as trevas e as feras, era exclusivamente sinônimo de calamidade. A “concretização” de um novo nicho de atuação equivale ao surgimento de uma espécie. A instituição de uma nova função, dentro do contexto de um projeto, é o mesmo que inventar. Tinha, constataremos depois, potencialidade desde sempre e vivalma jamais percebera! Provavelmente estamos cercados de possíveis e plausíveis objetivos, pululando à espera de existência real, e não nos damos conta disso.

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